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sexta-feira, 17 de abril de 2020

ADOLFO BEZERRA DE MENEZES

ADOLFO BEZERRA DE MENEZES Apontamentos biobibliográficos Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu em 29 de agosto de 1831 na fazenda Santa Bárbara, no lugar chamado Riacho das Pedras, município cearense de Riacho do Sangue, hoje Jaguaretama, estado do Ceará. Descendia Bezerra de Menezes de antiga família, das primeiras que vieram ao território cearense. Seu avô paterno, o coronel Antônio Bezerra de Souza e Menezes tomou parte da Confederação do Equador, e foi condenado à morte, pena comutada em degredo perpétuo para o interior do Maranhão, e que não foi cumprida porque o coronel faleceu a caminho do desterro, sendo seu corpo sepultado em Riacho do Sangue. Seus pais, Antônio Bezerra de Menezes, capitão das antigas milícias e tenente-coronel da Guarda Nacional, desencarnou em Maranguape, no dia 29 de setembro de 1851, de febre amarela; a mãe, Fabiana Cavalcanti de Alburquerque, nascida em 29 de setembro de 1791, desencarnou em Fortaleza, aos 91 anos de idade, perfeitamente lúcida, em 5 de agosto de 1882. Desde estudante, o itinerário de Bezerra de Menezes foi muito significativo. Em 1838, no interior do Ceará, conheceu as primeiras letras, em escola da Vila do Frade, estando à altura do saber de seu mestre em 10 meses. Já na Serra dos Martins, no Rio Grande do Norte, para onde se transferiu em 1842 com a família, por motivo de perseguições políticas, aprendeu latim em dois anos, a ponto de substituir o professor. Em 1846, já em Fortaleza, sob as vistas do irmão mais velho, o Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra, conceituado intelectual e líder católico, efetuou os estudos preparatórios, destacando-se entre os primeiros alunos do tradicional Liceu do Ceará. Bezerra queria tornar-se médico, mas o pai, que enfrentava dificuldades financeiras, não podia custear-lhe os estudos. Em 1851, aos 19 anos, tomou ele a iniciativa de ir para o Rio de Janeiro, a então capital do Império, a fim de cursar medicina, levando consigo a importância de 400 mil réis, que os parentes lhe deram para ajudar na viagem. No Rio de Janeiro, ingressou, em 1852, como praticante interno no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Para poder estudar, dava aula de filosofia e matemática. Doutorou-se em 1856 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em março de 1857, solicitou sua admissão no Corpo de Saúde do Exército, sentando praça em 20 de fevereiro de 1858, como cirurgião tenente. Ainda em 1857, candidatou-se ao quadro dos membros titulares da Academia Imperial de Medicina com a memória "Algumas considerações sobre o cancro, encarado pelo lado do seu tratamento", sendo empossado em sessão de 1º de junho. Nesse mesmo ano, passou a colaborar na "Revista da Sociedade Físico-Química". Em 6 de novembro de 1858, casou-se com a Sra. Maria Cândida de Lacerda, que desencarnou no início de 1863, deixando-lhe um casal de filhos. Em 1859 passou a atuar como redator dos "Anais Brasilienses de Medicina", da Academia Imperial de Medicina, atividade que exerceu até 1861. Em 21 de janeiro de 1865, casou-se, em segunda núpcias com Dona Cândida Augusta de Lacerda Machado, irmã materna de sua primeira esposa, com quem teve sete filhos. Já em franca atividade médica, Bezerra de Menezes demonstrava o grande coração que iria semear, até o fim do século, sobretudo entre os menos favorecidos da fortuna, o carinho, a dedicação e o alto valor profissional. Foi justamente o respeito e o reconhecimento de numerosos amigos que o levaram à política, que ele, em mensagem ao deputado Freitas Nobre, seu conterrâneo e admirador, definiu como “a ciência de criar o bem de todos”. Elegeu-se vereador para Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 1860, pelo Partido Liberal. Quando tentaram impugnar sua candidatura, sob a alegação de ser médico militar, demitiu-se do Corpo de Saúde do Exército. Na Câmara Municipal, desenvolveu grande trabalho em favor do “Município Neutro” e na defesa dos humildes e necessitados. Foi reeleito com simpatia geral para o período de 1864-1868. Não se candidatou ao exercício de 1869 a 1872. Em 1867, foi eleito deputado-geral (correspondente hoje a deputado federal) pelo Rio de Janeiro. Dissolvida a Câmara dos Deputados em 1868, com a subida dos conservadores ao poder, Bezerra dirigiu suas atividades para outras realizações que beneficiassem a cidade. Em 1873, após quatro anos afastados da política, retomou suas atividades, novamente como vereador. Em 1878, com a volta dos liberais ao poder, foi novamente eleito à Câmara dos Deputados, representando o Rio de Janeiro, cargo que exerceu até 1885. Neste período, criou a Companhia de Estrada de Ferro Macaé a Campos, que veio proporcionar-lhe pequena fortuna, mas que, por sua vez, foi também o sorvedouro dos seus bens, deixando-o completamente arruinado. Em 1885, atingiu o fim de suas atividades políticas. Bezerra de Menezes atuou 30 anos na vida parlamentar. Outra missão o aguardava, esta mais nobre ainda, aquela de que o incumbira Ismael, não para o coroar de glórias, que perecem, mas para trazer sua mensagem à imortalidade. O Espiritismo, qual novo maná celeste, já vinha atraindo multidões de crentes, a todos saciando na sua missão de consolador. Logo que apareceu a primeira tradução brasileira de “O Livro dos Espíritos”, em 1875, foi oferecido a Bezerra de Menezes um exemplar da obra pelo tradutor, Dr. Joaquim Carlos Travassos, que se ocultou sob o pseudônimo de Fortúnio. Foram palavras do próprio Bezerra de Menezes, ao proceder a leitura de monumental obra: “Lia, mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito, entretanto tudo aquilo era novo para mim [...]. Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no Livro dos Espíritos [...]. Preocupei-me seriamente com este fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou mesmo, como se diz vulgarmente, de nascença”. Contribuíram também, para torná-lo um adepto consciente, as extraordinárias curas que ele conseguiu, em 1882, do famoso médium receitista João Gonçalves do Nascimento. Mais que um adepto, Bezerra de Menezes foi um defensor e um divulgador da Doutrina Espírita. Em 1883, recrudescia, de súbito, um movimento contrário ao Espiritismo e, naquele mesmo ano, fora lançado por Augusto Elias da Silva o “Reformador”, órgão oficial da Federação Espírita Brasileira e o periódico mais antigo do Brasil, ainda em circulação. Elias da Silva consultava Bezerra de Menezes sobre as melhores diretrizes a seguir em defesa dos ideais espíritas. O venerável médico aconselhava-o a contrapor-se ao ódio, o amor, e a agir com discrição, paciência e harmonia. Bezerra não ficou, porém, no conselho teórico. Com as iniciais A. M., principiou a colaborar com o “Reformador”, emitindo comentários judiciosos sobre o Catolicismo. Fundada a Federação Espírita Brasileira em 1884, Bezerra de Menezes não quis inscrever-se entre os fundadores, embora fosse amigo de todos os diretores e sobremaneira, admirado por eles. Embora sua participação tivesse sido marcante até então, somente em 16 de agosto de 1886, aos 55 anos de idade, Bezerra de Menezes, perante grande público, em torno de 1.500 a 2.000 pessoas, no salão de Conferência da Guarda Velha, em longa alocução, justificou a sua opção definitiva de abraçar os princípios da consoladora doutrina. Daí por diante Bezerra de Menezes foi o catalisador de todo o movimento espírita na Pátria do Cruzeiro, exatamente como preconizara Ismael. Com sua cultura privilegiada, aliada ao descortino de homem público e ao inexcedível amor ao próximo, conduziu o barco de nossa doutrina por sobre as águas atribuladas pelo iluminismo fátuo, pelo cientificismo presunçoso, que pretendia deslustrar o grande significado da Codificação Kardequiana. Presidente da FEB em 1889, ao espinhoso cargo foi reconduzido em 1895, quando mais se agigantava a maré da discórdia e das radicalizações no meio espírita, nele permanecendo até 1900, quando desencarnou. O Dr. Bezerra de Menezes foi membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, da Sociedade Físicoquímica, sócio e benfeitor da Sociedade Propagadora das Belas-Artes, membro do Conselho do Liceu de Artes e presidente da Sociedade Beneficente Cearense. Escreveu em jornais como “O Paiz”, redigiu “Sentinela da Liberdade”, os “Anais Brasilienses de Medicina”, colaborou na “Reforma”, na “Revista da Sociedade Físico-química” e no “Reformador”. Utilizava os pseudônimos de Max e Frei Gil. O dicionarista J. F. Velho Sobrinho alinha extensa bibliografia de Bezerra de Menezes, relacionando para mais de quarenta obras escritas e publicadas. São teses, romances, biografias, artigos, estudos, relatórios, etc. Bezerra de Menezes desencarnou em 11 de abril de 1900, às 11h30min., tendo ao lado a dedicada companheira de tantos anos, Cândida Augusta. Morreu pobre, embora seu consultório estivesse cheio de uma clientela que nenhum médico queria; eram pessoas pobres, sem dinheiro para pagar consultas. Foi preciso constituir-se uma comissão para angariar donativos visando a possibilitar a manutenção da família. A comissão fora presidida por Quintino Bocayuva. Por ocasião de sua morte, assim se pronunciou Leon Denis, um dos maiores discípulos de Kardec: “Quando tais homens deixam de existir, enlutase não somente o Brasil, mas os espíritas de todo o mundo”. Fonte: Texto incluído nas obras que integram a Coleção Bezerra de Menezes, publicada pela FEB.

sábado, 25 de maio de 2019

"Trajetória de Allan Kardec, difusor do espiritismo, chega aos cinemas" Leia mais em: https://guia.gazetadopovo.com.br/materias/trajetoria-de-allan-kardec-difusor-do-espiritimos-chega-aos-cinemas/ Copyright © 2019, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

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Trajetória de Allan Kardec, difusor do espiritismo, chega aos cinemas
Ao recontar a crise de fé do fundador da Doutrina Espírita Kardec, o filme, busca reconciliar fé e razão

LUIZ GUSTAVO VILELA 24/05/2019 15:00
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 Leonardo Medeiros é o protagonista Hypolite Leon Denizard Rivail, conhecido depois como Allan Kardec. Foto: Daniel Behr
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Nesta semana chega aos cinemas de Curitiba Kardec (2019), cinebiografia de Hippolyte Léon Denizard Rivail, que ficou mais conhecido pelo seu pseudônimo (ou, se preferir, nome de uma de suas vidas passadas) Allan Kardec. A produção narra o arco dramático que fez um homem de ciência – um educador discípulo de Pestalozzi que se recusa a trabalhar depois de o Imperador Napoleão III obrigar o ensino religioso nas escolas – se interessar pelo mundo dos espíritos a ponto de arriscar toda sua carreira. Uma crise de fé na razão iluminista, digamos.

No Brasil, país em que a Doutrina Espírita encontra particular ressonância, o nome de Allan Kardec é um dos mais conhecidos. É curioso, porém, como só agora o cinema demonstra interesse pelas histórias fundantes da filosofia (Chico Xavier, o outro nome mais diretamente associado ao Espiritismo no Brasil, ganhou uma cinebiografia em 2010 pelas mãos de Daniel Filho com Nelson Xavier no papel-título). “Quando o Marcel Souto Maior me ligou e disse que estava escrevendo uma nova biografia sobre ele e sugeriu que a gente levasse essa história para o cinema. E eu fiquei caramba! Como não pensei nisso antes, porque é boa a história”, diz Wagner de Assis, diretor de Kardec.

Considerando a trajetória de Assis, é ainda mais curioso que só agora ele tenha feito este filme. Ele é o diretor de Nosso Lar (2010), baseado nos relatos do espírito André Luiz depois da morte, e de A Menina Índigo (2016), sobre uma criança cuja mediunidade é confundida com voluntarismo. Ambos, assim como Kardec, com a temática espírita operando um papel central. O diretor, porém, refuta, em parte, o título de “diretor de filmes espíritas” e chega a questionar se “filme espírita” sequer seria um gênero próprio.



Para ele, “Nosso Lar é sobre o que acontece depois da vida, e isso não é propriedade do espiritismo, está longe de ser. A Menina Índigo é sobre novas gerações de crianças que estão mudando o mundo. E o Kardec é sobre a transformação de um homem – quase heroico, mitológico. O processo de mudança de vida pelo qual ele passou”. Assis, porém, sabe que a temática é recorrente demais para refutar uma ligação tão óbvia e logo emenda: “mas como é muito difícil fazer um filme e você vai trabalhar cinco, seis anos de sua vida, é bom que seja algo que te diga respeito.”

Assis considera a dimensão humana a questão definidora da sua obra, mais até do que a temática Espírita, mas em boa parte pelo potencial ficcional que estas tramas possuem. “Acho esse tema fantástico. Acho que tem histórias incríveis. Como contador de histórias eu me interesso pelas boas histórias. Gosto do aspecto de buscas pessoais, do questionamento pessoal, sobre quem somos, de onde viemos. E tento colocar isso no meu trabalho de alguma forma que não seja uma escolha somente pela minha crença pessoal, mas em função de uma boa história”, conta.

O que chama atenção em Kardec, para além da temática, é o valor de produção. A reconstrução de época, dos figurinos às locações, impregna a tela com um realismo que ajuda a manter a atenção do espectador ao longo da projeção. “A gente foi para Paris para pegar o máximo de realidade possível. E fomos apagando [digitalmente] as marcas de modernidade. A maioria das externas é Paris. Isso é uma felicidade muito grande”, conta o diretor.

Como é uma história de transformação pessoal, mas lida com questões da política francesa da época, a verossimilhança é muito importante para a fruição do filme, o que se reflete no cuidado com a produção. Por isso também é curiosa a opção de usar atores brasileiros falando em português. O diretor revela que para esta é “uma opção muito natural já que o filme reverbera mais no Brasil, que tem relação com nossa realidade”, dada a penetração do Espiritismo no Brasil.



Crise de fé

O tema da crise de fé não é estranho ao cinema. Martin Scorsese o usou no seu à época infame A Última Tentação de Cristo (1988), em que Jesus Cristo (Willem Dafoe), jejuando por 40 dias no deserto, contempla uma existência mundana, com mulher e filhos, ao invés do sacrifício que o aguardava no Calvário. Mais recentemente Paul Schrader lançou Fé Corrompida (2017), em que um padre (Ethan Hawke) questiona se as mudanças climáticas provocadas pelo homem, por ferirem a beleza da criação divina, não seriam inerentemente pecaminosas. Kardec, apesar de se ambientar em meados do Século XIX, reflete em parte essa mesma angústia existencial contemporânea.

Segundo o filme, Leon Rivail (Leonardo Medeiros) é convencido, não sem bastante resistência, a participar de uma sessão das então infames “mesas girantes”, um truque de salão que eram moda nos salões parisienses. As experiências com médiuns o fazem não apenas acreditar que há um mundo espiritual, como essas entidades estão dispostas a afetar a existência física. Começa sua crise de fé na razão pura, por mais contraditório que pareça. A questão é que, homem de ciência por excelência, Rivail começa a usar o método científico para questionar os fenômenos sobrenaturais, publicando os resultados no livro O Mundo dos Espíritos, já sob o nome Allan Kardec.



Historicamente fé e razão, religião e ciência, estão em campos de disputa opostos. Um não respira onde o outro existe. “Ou você acredita, porque acredita cegamente, ou você entende e isso te impede de acreditar”, diz Assis. Ele, porém, pensa que histórias como a de Kardec podem promover uma conciliação: “um dos grandes méritos do filme é essa reconstrução de uma possibilidade até então inaudita de fé e razão andarem juntas. A tal da fé raciocinada, que é um termo que ele [Rivail/Kardec] acaba criando depois, é algo que parecia inacessível para o mundo.”

Para o diretor, a forma de pensar kardecista finalmente começa a encontrar ressonância no mundo contemporâneo. “Vejo hoje a ciência clássica acompanhada de muita ciência alternativa, de muita meta ciência. Muitos profissionais que começam a sair de dentro dos laboratórios. Temos, por exemplo, uma associação de médicos espíritas enorme, investigando como aqueles conhecimentos ajudam as pessoas a serem melhor tratadas em suas enfermidades. Ao mesmo tempo vejo a razão desconstruir castelos de areia em relação à fé. E isso é sensacional”, diz.



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quarta-feira, 31 de agosto de 2016